Meu filho...
Eu te pari, entre tantos, sem a certeza do futuro que te daria
Eu não controlo o futuro, porque não controlo nem o presente
Nós dois somos vítimas do que eles fizeram de nós
Eu te pari com a dor da incerteza, do medo, mas ainda com a fé e a esperança
Porque é assim que se vem a esse mundo...
E ainda (muito) mais quando se é obrigada a parir sem garantias do que te proporcionar
São poucos que não temem
Só uns poucos tem meios
E eu te peço perdão, meu filho
Perdão por tentarem fazer de ti menos meu que os outros
Só porque é preto,
Só porque é pobre,
Só porque é favelado,
Só porque é mulher,
Só porque é gay...
Eu te peço perdão, meu filho,
Porque quem aprendeu a te amar, hoje, despedaça-se ao chão
Assim como o futuro que estão tentando nos forjar, ocultando nossa história e amarrando nossas mãos
Eu te peço perdão, meu filho,
Porque outros filhos não entenderam, e talvez nunca entenderão, que quem ama cuida
E que se deve olhar mais por aquele que sofre do que àquele que tem garantias
Eles são egoístas, meu filho...
E embora saibam que foi-se moldando num erro assim o Caim que matou Abel, preferem que se forjem mil Caims desde que se mantenha o privilégio de um Abel...
Eu te peço perdão, meu filho, pelo teu curto tempo de vida...
Pela curta dimensão de mundo que ocupaste neste espaço...
Não foi por minhas mãos...
Mas foi o que fizeram delas...
Eu te peço perdão, meu filho,
Por teu sangue ter lavado as escadas e lágrimas correrem pelo rosto de teus progenitores...
Sofro tal qual a Maria agarrada ao crucifixo
Mas numa quinta feira santa...
Eu te peço perdão, meu filho, por haver tantos outros filhos como você...
Que mal nasceram e já vão morrer...
De morte matada ou de vida perdida...
Eu te peço perdão, meu filho,
Porque não adianta que eu te dedique meu nome, que eu te erga bandeira, que eu balbucie essa lástima se nada vai te trazer de volta...
Perdão, meu filho, por não te chamarem de homem de bem
Porque nem homem chegaste a ser...
Porque 'bem' é um adjetivo que tentam limitar entre as paredes dos condomínios...
E porque nem isso querem saber calcular...
Perdão, meu filho, porque não sou a pátria que te merece
Não me fizeram assim, nem a querem fazer de mim
Mas eu lastimo os corações de meus Eduardos com milhões e milhões de ais...
Marcela Pessôa
03/04/ 2015
Sobre e para sentimentos Quixotescos
"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia."{Vinícius de Moraes}