Sobre e para sentimentos Quixotescos

"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia."

{Vinícius de Moraes}







sábado, 20 de fevereiro de 2016

A gente

Não somos gente
Somos a subespécie do mato, da roça
Da pele seca e pé rachado que recebe o resto, porque merece o resto
O resto da economia, o resto da política, o resto da sociedade
Somos o resto, não gente
Gente arrestada, arrastada, arretada
Do pouco metal
Do pouco papel
Do pouco plástico
Dos olhos poucos
Daqueles olhos asquerosos e sedentos que nos golpeiam
Ou dos convalescidos que nos assistem
Vez em quando há olhos mesmos, com brilho...
Amorosos e esperançosos...
Mas dão neles as cataratas do tempo
Dão neles a pouca estrutura e estrutura pouca
Esvaecem
E se esvaecem conosco
Essa nossa luta
Essa labuta
O sol a sol
E sal na cacimba
E dor na alma
E o crioulo guardado no bolso esquerdo
Somos o resto de ser gente
A gente não é gente
A gente é o bicho
Sofre como bicho:
Acuado, maltratado, mutilado pela desumanidade humana
A gente é o broto triste na fissura da terra.

Marcela Pessôa
18/02/2016