Sobre e para sentimentos Quixotescos

"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia."

{Vinícius de Moraes}







domingo, 8 de outubro de 2017

Paixão

Ai, Mata...
Um dia tão Atlântica
Hoje tão apequenada...
Suas cores tão viçosas
Parecem fazer serenata
Da grandeza do ontem
Que hoje resta...
Restinga!
Tantas mãos para te possuir
Tão poucas para te cuidar
E o vento sussurra em tuas folhas
Aqueles tão doces lamentos
Suuu
Suuuuus
Sustentabilidade!
Ai, Boff!..

Terra

Eu te amo mais que me amas,
Eu já sei.
Não me envergonho por isto.
E sei que conheço de ti
Mais que sabes de mim.

Sou apenas mais um invisível amador de tua aurora.
Um apaixonado pelas estrelas pinceladas
Na carne de teu céu.
Um deslumbrado com teu cada dia valsante.
Um envolvido, um enamorado...

Me absorvem os sulcos que descem
Por entre tuas coxas montanhosas...
E a carícia com que afagas aos sopros meus cabelos.
Me encanta a beleza nativa dos herdeiros de teu útero,
E os beijos avassaladores com que castigas sua vil existência.

Sou teu amante inveterado, indisciplinado,
Pequeno e insignificante.
Teu filho que regozija no prazer de existir
A beleza da própria existência.
Apenas mais um carente de teus mortais.


Marcela Pessôa

Sem data...

Amar

Amo o verde e a folha
Amo o rosa e a rosa
Amo a dor e o espinho
Amo o ventre e o corpo
Amo o som e destreza
Amo a cor e a beleza
Esta plenitude tão cara
Por não saber o que há de amanhã
Além de um sopro de vida...


Marcela Pessôa
sem data...

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Abismo

Quem me fortalece é o abismo
Ele me olha com tanto ardor, como se todas as suas almas não fossem suficientes
E ansiosamente espera por me devorar
Eu olho para suas profundezas e vejo o nada
O lugar nenhum
O caminho mais fácil e acessível do óbvio
E ecoa desde seu fim um assovio intermitente
Como o sibilo da cobra a passar desavisada pelo seu caçador
Sou caçadora

Quem me alimenta é o abismo
A retomada súbita de forças a cada vez que reequilibro
O fio fino de gelo descendo pela coluna
O aperto das tripas numa fusão de medo e alívio
Passar os pés por cima do nada, fazendo carinho no vazio
Circulando por entre sua beirada e tendo à espreita o infinito obtuso
Sou equilibrista

Quem me enriquece é o abismo
Olhar pra dentro dele e enxergar sombras, me projeta pro interior de mim a encontrar vida
Tanta vida
Um tecido de vida com milhares de linhas cosidas com sentimentos de conhecidos e anônimos
No corpo, nada além do revestimento da pele
Mas por dentro, uma micronação cheia de versos e multiversos
Sou rainha

Quem me apaixona é o abismo
Olho pra ele com a ternura de uma mãe órfã
Com sentimento por todos que cansaram e caíram, ou se jogaram para o salto sem fundo
"Fiquem", os diria?
"Vão"?
Talvez, "podem ir"?
É em seu respeito que continuo no limiar das fronteiras
Pelo que vale a pena prosseguir
Somos mãos

"Vamos de mãos dadas"


Marcela Pessôa
26/07/2017

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Precioso

Te aguardo.
Sua luz não vem de mim, mas também há de mim em você.
Precioso...
Bem querer de meu-bem-querer.
Minha semente morta floresce em você
E a dor e tristeza que habitavam, foram deixados para trás.
Te aguardo, precioso.
Amo a ela que disse sim e te deixou germinar.
Você está vindo e minh'alma se felicita
Que um sopro seu é pedaço meu também...
Seja bem vindo!
Corações aquecidos te aguardam...


Marcela Pessôa
14/09/2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Ele

Transpassa e teleporta-se
Toca de um lado a outro como o sibilar da cobra
Arranha, distorce, machuca...
Vai e vem dançando no vento
E quão mais quente, mais dono de si
E de todos nós...
Agride, sufoca...
Beija secamente e penetra...
A garganta queima
Cortam-se as cordas
Reina como o jagunço mais destemido
Fomos
Seremos
Ele...


Marcela Pessôa
18/08/2016

sábado, 16 de abril de 2016

Tão normal

É assim de uma beleza tão normal que até é discutível se não é feiura
Esses olhos mortos, baixos, frouxos, perdidos
Esses lábios duros, ásperos e escurecidos
Essas maçãs apodrecidas
Sem contar os pelos rotos
Uns braços vazios
Umas pernas sofríveis
Uma bunda desbundada enquanto as coxas foram passear sozinhas
Uns pés de porco
Umas mãos de vaca
Um tronco que mal se sustenta estando em pé
Tem vida
É gente
Mas gente comum
Tão comum que na multidão ninguém se dá a contar
Não sabe se vinga ou se atrapalha
E no espírito, também não tem lá muita graça
Mas tem coração
Um coração
Ah, que coração
Pulsa jocosamente
Impulsa mais ainda
É de uma humanidade...

Marcela Pessôa
16/04/2016

CPMB

Amor verdadeiro..
É esse sentimento de pertencimento a um mundo que, na verdade, não é seu como imagina.
Saber-se diante dele frágil e impotente, mas com a determinação e a garra...
É esse cuidado eterno nos detalhes.
Perceber com afeto os pequenos gestos e sentimentos.
É querer zelar infinitamente apenas por vontade de ser seu, tal como o sente...
É compartilhar essa vida, a memória,o barulho e o silêncio.
Eu vos faço uma prece, por cada suspiro de amor que me arrancam...
Simples e livre como a queda das folhas caducas em outono.
Eu vos amo.

Marcela Pessôa
11/04/2016

Ocaso do acaso

E com o campo, veio o abraço
E no encontro, a companhia
No copo d'água brindou o beijo...
Com o jardim, veio o céu
E com a terra, o seu sexo
Quê viu?
Que vil...
Que vão!

Na viola, a cantoria
No passeio, dada a mão
E na imagem, veio a beleza
Com a  linha, virou poesia
E com o espaço, veio o prazer
Quem viu?
Quão vil?
Quem não?

A espádua nua acobertam as estrelas...
Com a carne suave desenhada na luz...
Com o suor do desejo refletido no espelho...

A brevidade das horas esboçou o senão...
Ai, ai...

Marcela Pessôa
30/01/2016

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A gente

Não somos gente
Somos a subespécie do mato, da roça
Da pele seca e pé rachado que recebe o resto, porque merece o resto
O resto da economia, o resto da política, o resto da sociedade
Somos o resto, não gente
Gente arrestada, arrastada, arretada
Do pouco metal
Do pouco papel
Do pouco plástico
Dos olhos poucos
Daqueles olhos asquerosos e sedentos que nos golpeiam
Ou dos convalescidos que nos assistem
Vez em quando há olhos mesmos, com brilho...
Amorosos e esperançosos...
Mas dão neles as cataratas do tempo
Dão neles a pouca estrutura e estrutura pouca
Esvaecem
E se esvaecem conosco
Essa nossa luta
Essa labuta
O sol a sol
E sal na cacimba
E dor na alma
E o crioulo guardado no bolso esquerdo
Somos o resto de ser gente
A gente não é gente
A gente é o bicho
Sofre como bicho:
Acuado, maltratado, mutilado pela desumanidade humana
A gente é o broto triste na fissura da terra.

Marcela Pessôa
18/02/2016

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Mulheres

Estou confinada em meu corpo
Aqui dentro dor e angústia
Interrupção e coragem
Dentre tantas outras formas, foi a que a vida me acometeu
Vítima da confiança cega no sistema perito
Partilhamos dela
E agora toda essa dor
Mas antes o momento do quê o etéreo, escolhi
Suportamos
Aprendi que é suportável
Tenho exemplos
Grandes exemplos
Senhoras da fecundidade, prostro-me
Tanto às que disseram sim quanto às que disseram não
Uma ou outra opção não as tornam mais ou menos mulheres
Mas ambas as tornam bravas
Criadoras de opções frente aos desafios
As admiro
As respeito
E como me orgulho de ter vindo mulher
Penso que o x tem um traço a mais para lidar com o que a sociedade lhe deu de menos
Já retumbou icônica, Adelia:
Ser gauche na vida é coisa pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.


MOP.
[sem data]