Sobre e para sentimentos Quixotescos

"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia."

{Vinícius de Moraes}







quarta-feira, 26 de julho de 2017

Abismo

Quem me fortalece é o abismo
Ele me olha com tanto ardor, como se todas as suas almas não fossem suficientes
E ansiosamente espera por me devorar
Eu olho para suas profundezas e vejo o nada
O lugar nenhum
O caminho mais fácil e acessível do óbvio
E ecoa desde seu fim um assovio intermitente
Como o sibilo da cobra a passar desavisada pelo seu caçador
Sou caçadora

Quem me alimenta é o abismo
A retomada súbita de forças a cada vez que reequilibro
O fio fino de gelo descendo pela coluna
O aperto das tripas numa fusão de medo e alívio
Passar os pés por cima do nada, fazendo carinho no vazio
Circulando por entre sua beirada e tendo à espreita o infinito obtuso
Sou equilibrista

Quem me enriquece é o abismo
Olhar pra dentro dele e enxergar sombras, me projeta pro interior de mim a encontrar vida
Tanta vida
Um tecido de vida com milhares de linhas cosidas com sentimentos de conhecidos e anônimos
No corpo, nada além do revestimento da pele
Mas por dentro, uma micronação cheia de versos e multiversos
Sou rainha

Quem me apaixona é o abismo
Olho pra ele com a ternura de uma mãe órfã
Com sentimento por todos que cansaram e caíram, ou se jogaram para o salto sem fundo
"Fiquem", os diria?
"Vão"?
Talvez, "podem ir"?
É em seu respeito que continuo no limiar das fronteiras
Pelo que vale a pena prosseguir
Somos mãos

"Vamos de mãos dadas"


Marcela Pessôa
26/07/2017

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