doces olhos risonhos
da sua infância
da sua puberdade
da sua vivicidade
Conheci os seus olhos
e seu brilho resplandecente
que dizia a toda gente
o quanto era genil
Conheci sua esperança
sua beleza inefável
de viver todo dia
com a ternura da alma
na vida e na crença
no prazer e no infinito
no verso e na prosa
Conheci, conheci os seus olhos
que contemplavam o tudo
que se admirava por nada
e só queria aprender a se ver
Conheci os seus olhos
enquanto o mundo se coloria
os costumes brotavam
e o respeito se revigorava
na humildade de apenas Ser
Conheci os seus olhos
enquanto as pessoas duvidavam,
seus sonhos passavam
e a realidade a cicatrizava
Conheci os seus olhos
nas suas mil maneiras de aprender
nas possibilidades de se refazer
e crer novamente no incrível
Conheci os seus olhos
na sofreguidão
e no desejo,
no melindre
e no cuidado,
na soma
e na dízima,
nos vãos abertos
e nas grotas
Conheci os seus olhos
nos céus
e no mármore,
na vitória
e não glória,
no taciturno
e no cotidiano
Conheci os seus olhos
e com eles suas lágrimas,
seu sabor
e seu pêndulo,
as ausências
e presenças
Sim, conheci os seus olhos
e só eu os sei tanto
[...]
A mim que dói o vazio
por permitir-se repetidamente
a inocência de olhar o mundo
apenas com o coração
- ainda que esta seja a forma
mais decorosa que tenhamos
para encontrar Deus
[...]
Cuida dos seus olhos
que eu a quero bem
e quero vê-los resplandecer
ainda por muito tempo.
Faz assim:
Me permita envolver-lhe mais
que prometo não lhe sufocar,
pois já sabemos ambos
que o equilíbrio da vida
está no desequilíbrio das circunstâncias.
Com carinho e ternura,
Sua razão.
Marcela Pessôa
03/10/2010