Sobre e para sentimentos Quixotescos

"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia."

{Vinícius de Moraes}







segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Inocência

Conheci os seus olhos
doces olhos risonhos
da sua infância
da sua puberdade
da sua vivicidade

Conheci os seus olhos
e seu brilho resplandecente
que dizia a toda gente
o quanto era genil

Conheci sua esperança
sua beleza inefável
de viver todo dia
com a ternura da alma
na vida e na crença
no prazer e no infinito
no verso e na prosa

Conheci, conheci os seus olhos
que contemplavam o tudo
que se admirava por nada
e só queria aprender a se ver

Conheci os seus olhos
enquanto o mundo se coloria
os costumes brotavam
e o respeito se revigorava
na humildade de apenas Ser

Conheci os seus olhos
enquanto as pessoas duvidavam,
seus sonhos passavam
e a realidade a cicatrizava

Conheci os seus olhos
nas suas mil maneiras de aprender
nas possibilidades de se refazer
e crer novamente no incrível

Conheci os seus olhos
na sofreguidão
e no desejo,
no melindre
e no cuidado,
na soma
e na dízima,
nos vãos abertos
e nas grotas

Conheci os seus olhos
nos céus
e no mármore,
na vitória
e não glória,
no taciturno
e no cotidiano

Conheci os seus olhos
e com eles suas lágrimas,
seu sabor
e seu pêndulo,
as ausências
e presenças
Sim, conheci os seus olhos
e só eu os sei tanto

[...]

A mim que dói o vazio
por permitir-se repetidamente
a inocência de olhar o mundo
apenas com o coração
- ainda que esta seja a forma
mais decorosa que tenhamos
para encontrar Deus

[...]

Cuida dos seus olhos
que eu a quero bem
e quero vê-los resplandecer
ainda por muito tempo.

Faz assim:
Me permita envolver-lhe mais
que prometo não lhe sufocar,
pois já sabemos ambos
que o equilíbrio da vida
está no desequilíbrio das circunstâncias.

Com carinho e ternura,
Sua razão.


Marcela Pessôa
03/10/2010

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